Gracindo Jr. morreu aos 83 anos, na noite desta terça, 1º de setembro de 2026, encerrando uma trajetória de mais de cinco décadas na televisão, no teatro, no cinema e no rádio. Filho de Paulo Gracindo, ele participou dos primeiros anos da Globo, construiu uma extensa carreira como ator e diretor e, a partir de 2006, viveu uma longa fase profissional na Record. Nos últimos anos, porém, havia praticamente trocado os estúdios pela tranquilidade das montanhas do interior do Rio de Janeiro. A morte ocorreu em casa e foi confirmada pelo filho Pedro Gracindo. Segundo informações divulgadas pela Globo, ele morreu de causas naturais.
Longe da rotina intensa das gravações, o ator passou boa parte de sua velhice na Casa da Colina, pousada localizada na Vila de Maringá, região de Visconde de Mauá. A propriedade havia sido comprada em 1990 e se transformou no refúgio de Gracindo e da mulher, a paisagista Daisy Poli. Era um lugar pelo qual tinha enorme carinho e que sua filha Daniela chegou a definir como o “paraíso particular” do pai.
Vida tranquila em Visconde de Mauá
Quando Gracindo comprou o terreno, a propriedade sequer tinha energia elétrica. Aos poucos, o espaço foi sendo transformado e passou a contar com oito chalés. O ator mantinha sua residência em uma área mais reservada, onde levava uma rotina bastante diferente daquela dos tempos em que emendava novelas, peças e outros trabalhos.
O afastamento dos grandes centros não significava falta de interesse pela profissão. Mesmo sem a mesma presença na televisão, continuava pensando em projetos, estudando ideias e mantendo contato com a arte. Segundo Daniela, o pai gostava de tocar instrumentos e revisitar trabalhos enquanto aproveitava a natureza.
A região também ganhou um projeto cultural ligado à família. Pedro Gracindo e a mulher, a atriz Júlia Fajardo, filha de José Mayer, mudaram-se para um terreno próximo. Ali surgiu o Vale Criativo, espaço com palco para atividades culturais, aulas de teatro e espetáculos. Gracindo participou da construção do local, realizando um antigo desejo de ajudar a levar teatro para a região.
Casamentos, relacionamentos e quatro filhos
A vida amorosa de Gracindo também teve diferentes capítulos. Ainda jovem, ele namorou a cantora Carminha Mascarenhas, entre 1959 e 1965. Mais tarde, teve relacionamentos com Vera Lúcia Martins da Cunha, Débora Duarte e Mila Moreira.
Com Vera Lúcia, teve o primogênito Yan, que seguiu carreira na área de marketing. Do relacionamento com Débora Duarte nasceu Daniela. O romance dos dois começou depois que se conheceram nos ensaios de uma peça e terminou quando a atriz ainda estava grávida.
A relação mais duradoura foi com Daisy Poli. Os dois se conheceram no teatro, quando ela ainda era atriz. Antes de começarem a namorar, tornaram-se amigos, e Daisy chegou a trabalhar como secretária e administradora das peças dele. Depois de quatro anos de relacionamento, decidiram morar juntos. Houve uma breve separação no início dos anos 1980, mas a união foi retomada. Eles tiveram dois filhos, Gabriel e Pedro, ambos atores.
Gracindo costumava dizer que a amizade, o respeito e o cuidado diário ajudavam a explicar a longevidade da relação. Também mantinha uma postura pouco convencional como pai. Em uma entrevista, afirmou que nunca teve uma relação “patriarcal” com os filhos e preferia enxergá-los também como amigos. Nos anos em que passou mais recolhido em Visconde de Mauá, continuou cercado pela família, incluindo filhos e netos.
Filho de Paulo Gracindo e ator desde a adolescência
Epaminondas Xavier Gracindo nasceu no Rio de Janeiro em 21 de maio de 1943. Filho de Paulo Gracindo, um dos grandes nomes da história do rádio e da televisão brasileira, começou cedo. Aos 15 anos, fez um teste para trabalhar na Rádio Nacional e acabou atuando como ator, redator e disc-jóquei. Também cursou Psicologia, embora nunca tenha exercido a profissão.
Estreou no teatro em 1961 e teve passagens pela TV Rio, Excelsior e Tupi antes de participar da inauguração da Globo, em 1965. Esteve no primeiro grupo de atores das novelas da emissora e apareceu em produções como Rosinha do Sobrado, Padre Tião, A Rainha Louca, Uma Rosa com Amor, O Bem-Amado, Os Ossos do Barão e O Casarão.
Em algumas ocasiões, dividiu a cena com o próprio pai. Um dos trabalhos mais lembrados aconteceu em O Casarão, de 1976, quando os dois interpretaram o mesmo personagem em diferentes fases da vida. Também trabalharam juntos em O Bem-Amado e Os Ossos do Barão.
Gracindo ainda assumiu funções atrás das câmeras. Depois de uma temporada em Portugal, retornou ao Brasil em 1978 e passou a supervisionar o núcleo de novelas das seis da Globo. Como diretor, trabalhou em produções como A Sucessora, Memórias de Amor, Marron Glacê e Explode Coração.
Como ator, seu currículo ainda reuniu Mandala, O Salvador da Pátria, Araponga, Deus nos Acuda, Anjo de Mim, Esplendor, Celebridade e Como uma Onda. Também trabalhou na Manchete, onde esteve em A Marquesa de Santos, Dona Beija e Tudo ou Nada. No cinema, acumulou participações em títulos como Os Trapalhões na Serra Pelada, Floresta das Esmeraldas, Primo Basílio e Segurança Nacional.
Nove anos na Record e batalha na Justiça
Uma das últimas grandes fases de sua carreira na televisão aconteceu na Record. Contratado no final de 2005, estreou na emissora em Cidadão Brasileiro, exibida em 2006. Depois vieram Luz do Sol, Poder Paralelo, Ribeirão do Tempo, Rei Davi, Pecado Mortal, Plano Alto e Milagres de Jesus.
A relação profissional terminou em fevereiro de 2015, depois de mais de nove anos. Posteriormente, Gracindo entrou com uma ação trabalhista contra a emissora. O ator alegou ter enfrentado jornadas de até 11 horas por dia, seis dias por semana, sem intervalo adequado para alimentação e descanso.
Na ação, seus advogados também questionaram o modelo de contratação como pessoa jurídica. A Justiça considerou nulo o contrato de PJ e reconheceu direitos correspondentes a uma relação de emprego. Uma testemunha relatou que Gracindo cumpria horários rígidos, tinha grande disponibilidade exigida pela emissora e poderia sofrer punições em caso de descumprimento.
A decisão determinou o pagamento de horas extras, férias, 13º salário, aviso prévio, FGTS e outros direitos trabalhistas. Na época, a Justiça também fixou provisoriamente o pagamento antecipado de R$ 200 mil, enquanto o valor definitivo dependeria da tramitação do processo.
Depois da Record, Gracindo ainda participou da novela portuguesa Ouro Verde e das séries Magnífica 70 e Homens?. Aos poucos, porém, a vida profissional perdeu espaço para uma rotina muito mais reservada.
Foi assim que um ator presente desde os primeiros dias da Globo passou seus últimos anos: distante do ritmo das grandes produções, perto da natureza e da família, em uma propriedade construída ao longo de décadas em Visconde de Mauá. Depois de uma vida atravessada por televisão, cinema, rádio e teatro, Gracindo encontrou nas montanhas do interior fluminense o lugar que escolheu para desacelerar e que tratava como seu próprio paraíso.

